A psicologia hospitalar é um campo de atuação da psicologia e uma área do conhecimento psicológico que visa fornecer suporte ao sujeito em adoecimento, com o objetivo de facilitar a travessia dessa fase com maior resiliência.

Nesse sentido, é um campo de entendimento e tratamento em torno do adoecimento, não somente doenças psicossomáticas, mas todo e qualquer tipo de enfermidade.

O processo de adoecimento comumente traz em seu bojo uma desorganização da vida do indivíduo, de modo que provoca várias transformações em sua subjetividade, ou seja, o sujeito sai do conforto de seu lar e se depara com a hospitalização, muda seus hábitos, perde sua identidade e, muitas vezes, acaba virando um número de prontuário.

Nesse momento, junto a toda equipe multidisciplinar, surge a figura do psicólogo que tem esse intuito de escutar e acolher o sofrimento do indivíduo frente às suas principais dificuldades no que tange a essa fase.

Enquanto a medicina visa curar a patologia, a psicologia hospitalar buscar ressignificar a posição do sujeito frente à doença.

O trabalho da psicologia hospitalar é de possibilitar voz a esse sujeito, fazer surgir a palavra. O instrumento de trabalho do psicólogo hospitalar é a escuta e a palavra, a partir desse enfoque este profissional visa minimizar o sofrimento psíquico do paciente em adoecimento.

As atividades do psicólogo no hospital situam-se em atendimentos psicoterapêuticos, psicoterapia de grupo, profilaxia e psicoeducação, atendimentos em ambulatórios, enfermarias e UTI, avaliação diagnóstica, psicodiagnóstico, consultoria e interconsulta e atuação em equipe multidisciplinar.

O Trabalho do Psicólogo Hospitalar

O objetivo principal do psicólogo hospitalar é auxiliar o paciente em seu processo de adoecimento, visando à minimização do sofrimento provocado pela hospitalização. Esse profissional deve prestar assistência ao paciente, bem como seus familiares e a equipe de serviço, sendo que este deve levar em consideração um leque amplo de atuações, tendo em vista a pluralidade das demandas.

De acordo com a definição do órgão que rege o exercício profissional do psicólogo no Brasil, o Conselho Federal de Psicologia – CFP (2003a), o psicólogo especialista em Psicologia Hospitalar tem sua função centrada nos âmbitos secundário e terciário de atenção à saúde, atuando em instituições de saúde e realizando atividades como:

  • atendimento psicoterapêutico;
  • grupos psicoterapêuticos;
  • grupos de psicoprofilaxia;
  • atendimentos em ambulatório e unidade de terapia intensiva;
  • pronto atendimento;
  • enfermarias em geral;
  • psicomotricidade no contexto hospitalar;
  • avaliação diagnóstica;
  • psicodiagnóstico;
  • consultoria e interconsultoria.

Chiattone (2000) ressalta, contudo, que, muitas vezes, o próprio psicólogo não tem consciência de quais sejam suas tarefas e papel dentro da instituição, ao mesmo tempo em que o hospital também tem dúvidas quanto ao que esperar desse profissional.

Se o psicólogo simplesmente transpõe o modelo clínico tradicional para o hospital e verifica que este não funciona como o esperado (situação bastante frequente), isso pode gerar dúvidas quanto à cientificidade e efetividade de seu papel.

Desse modo, segundo a autora, o distanciamento da realidade institucional e a inadequação da assistência mascarada por um falso saber pode gerar experiências malsucedidas em Psicologia Hospitalar.

O psicólogo deve estar cônscio de seu papel na instituição hospitalar, visto que sua atuação não abrange somente a hospitalização em si, no que tange à patologia, mas, sobretudo, as sequelas e consequências emocionais decorrentes do adoecimento. Nessa perspectiva o psicólogo deve atuar de modo preventivo, evitando o agravamento do problema.

A Psicologia Hospitalar: objetivos e limites

Para (Alamy, 1991) podemos conceituar Psicologia Hospitalar como o ramo da Psicologia destinado ao atendimento de pacientes portadores de alguma alteração orgânico-física, que seja responsável pelo desequilíbrio em uma das instâncias bio-psico-social, bem como uma Psicologia dirigida a pacientes internados em hospitais gerais sem deixar de se estender aos ambulatórios e consultórios, com sua atenção voltada para as questões emergenciais advindas da doença e/ou hospitalização, do processo do adoecer e do sofrimento causado por estas, visando o minimizar da dor emocional do paciente e de sua família.

Como o fato da psicologia hospitalar ser uma área que lida diretamente com a subjetividade e sofrimento do outro, é essencial que o psicólogo entenda os limites de sua atuação para não se tornar um dos elementos invasivos provenientes da hospitalização.

Embora o paciente esteja necessitando de atendimento é necessário balizar a vontade ou não paciente de receber assistência, a vontade do sujeito deve ser respeitada. Assim, pode-se pensar em uma atuação que respeita a condição humana e caminhe dentro dos princípios morais e éticos.

De outra parte, é também muito importante observar-se o fato de que, ao atuar em uma instituição, o psicólogo, ao contrário da prática isolada de consultório, tem que ter bastante claros os limites institucionais de sua atuação. Na instituição hospitalar o atendimento deverá ser norteado a partir dos princípios institucionais (ANGERAMI, 1984).

A psicologia hospitalar não deve se colocar no contexto hospitalar como uma força solitária. Deve, acima de tudo, colaborar com seus objetivos para promover a humanização e a transformação social no ambiente hospitalar, sem ficar preso somente às teorizações que isolam os conflitos mais amplos.

Desafios e Possibilidades da Psicologia Hospitalar

O estado precário da saúde da população é um entrave dentro do saber psicológico, pois exige do profissional uma revisão de seus valores pessoais, acadêmicos e emocionais.

Nesta perspectiva, o contexto hospitalar, principalmente em instituições públicas de saúde, difere do contexto de aprendizagem e orientação acadêmica, uma vez que ali se percebe uma realidade desumana nas condições de saúde da população que é alvo constante de injustiças sociais e aspira por um tratamento hospitalar digno. Os doentes são não raros obrigados a aceitar como normais, todas as formas de agressão com as quais se deparam em busca da saúde (ANGERAMI-CAMON,1995).

É um desafio para o profissional adentrar em um contexto onde quem predomina é a área médica, onde há limites institucionais regidos por regras, condutas e normas. Além do que o serviço muitas vezes é muito deficiente e deve-se considerar que o atendimento psicológico afasta-se do modelo clínico tradicional, e muitas vezes, leva o profissional a fazer os atendimentos em macas, nos corredores, exigindo a construção de uma nova postura profissional.

A inserção do psicólogo no contexto hospitalar tem a possibilidade de atuar no contexto de trabalho nas equipes inter e multidisciplinares, promovendo a humanização, qualidade de vida e assistência psicológica ao sujeito hospitalizado, a família e a equipe de saúde.

Angerami-Camon (1988) reflete sobre o trabalho do psicólogo junto ao paciente, à família, à equipe de saúde diante de situações específicas dentro do hospital. Ele defende a importância da trajetória hospitalar do paciente (diagnóstico e prognóstico), pois isto revela o tipo de trabalho a ser desenvolvido pelo psicólogo.

Assim, as intervenções precisam observar que a estruturação do atendimento considera questões específicas da sintomatologia abordada em sua totalidade. Outra atuação seria a prestação de esclarecimentos aos profissionais sobre as questões emocionais do indivíduo internado.

Além disso, junto à família, o psicólogo hospitalar precisa perceber que a mesma vive um momento de ansiedade, o qual envolve o restabelecimento físico do paciente.

Considerações finais

A psicologia hospitalar é uma área que se propõe a trabalhar com o sofrimento da pessoa em face a sua hospitalização, não objetiva curar a patologia em si, mas dar mecanismos para que esse sujeito ressignifique seu adoecimento e aprenda a lidar melhor com essa transição.

Assim, temos uma psicologia hospitalar que se constrói a cada dia em sua prática, e que tem como técnica, possibilitar o surgimento da palavra naquele que sofre, isto é, amenizar o sofrimento e auxiliar no campo preventivo para que o caso não evolua.

Nesse sentido, é um trabalho que lida diretamente com a subjetividade do outro e que necessita largamente de um compromisso ético com a condição humana.

Referências

  1. ALAMY, Suzana. Ensaios de Psicologia Hospitalar – a ausculta da alma. Belo Horizonte: 2003. P. 18.
  2. ANGERAMI, V.A. Psicologia Hospitalar. A Atuação do Psicólogo no Contexto Hospitalar. São Paulo: Traço, 1984.
  3. ANGERAMI-CAMON, V. A Psicologia no Hospital. São Paulo: Traço, 1988.
  4. ANGERAMI-CAMON, V.A. Psicología hospitalar: Teoria e prática. São Paulo: Pioneira, 1995.
  5. CASTRO, Elisa Kern de; BORNHOLDT, Ellen. Psicologia da saúde x psicologia hospitalar: definições e possibilidades de inserção profissional. Psicol. cienc. prof.,  Brasília,  v. 24,  n. 3, Sept.  2004 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932004000300007&lng=en&nrm=iso>. access on  12  May  2013.  http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932004000300007.
  6. CHIATTONE, H. B. C. A Significação da Psicologia no Contexto Hospitalar. In Angerami-Camon, V. A. (org.).Psicologia da Saúde – um Novo Significado Para a Prática Clínica. São Paulo: Pioneira Psicologia, 2000, pp. 73-165.    
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